Educação empreendedora: por que formar esse pensamento nos jovens?
Formar o pensamento empreendedor nos jovens não significa exigir que todos abram uma empresa. Significa criar oportunidades para que aprendam a identificar problemas, investigar suas causas, construir soluções com outras pessoas e assumir responsabilidade pelas próprias escolhas. Essa formação interessa à vida, ao trabalho e à participação na sociedade, não apenas a quem deseja empreender um negócio.

O que é educação empreendedora?
O EntreComp, referencial de competências empreendedoras da Comissão Europeia, define empreendedorismo como agir sobre oportunidades e ideias para transformá-las em valor para outras pessoas. Esse valor pode ser financeiro, cultural ou social. Portanto, organizar uma iniciativa de leitura, melhorar a acessibilidade de um espaço ou reduzir desperdícios também pode ser uma experiência de aprendizagem empreendedora.
Na escola, propomos traduzir essa ideia em um percurso: observar uma situação, ouvir quem é afetado, formular hipóteses, planejar uma ação, testar e revisar. O foco não é celebrar qualquer ideia como inovação, mas perguntar: para quem isso tem valor e que evidências sustentam essa conclusão?
Por que desenvolver esse pensamento na juventude?
A escola pode oferecer um ambiente acompanhado para experimentar decisões antes que elas envolvam grandes custos ou riscos. Não se trata de antecipar a pressão do mercado, mas de criar situações em que o jovem participe das escolhas e consiga explicar o que aprendeu com elas. Estes são cinco objetivos pedagógicos que podem orientar esse trabalho:
- Exercitar a autonomia com responsabilidade. Escolher um problema, combinar tarefas e justificar prioridades coloca o estudante diante de decisões concretas. Autonomia não é fazer tudo sozinho: inclui reconhecer limites e pedir ajuda.
- Transformar criatividade em investigação. Uma ideia interessante é um ponto de partida, não uma resposta comprovada. Entrevistas, observações e pequenos testes permitem confrontar a proposta com a realidade e rever suposições.
- Aprender a colaborar. Projetos coletivos criam oportunidades para escutar perspectivas diferentes, negociar responsabilidades e lidar com desacordos. Dividir tarefas sem conversar sobre o problema não basta.
- Tomar decisões diante da incerteza. Nem toda informação estará disponível. O estudante pode aprender a distinguir o que sabe do que ainda precisa descobrir e a escolher um próximo passo pequeno e reversível, sem glorificar riscos desnecessários.
- Conectar conhecimento e participação social. Matemática pode ajudar a estimar custos; linguagem, a construir argumentos; ciências, a investigar impactos. O projeto oferece um contexto de aplicação, sem dispensar o ensino dos conteúdos.
Esses objetivos não são garantias automáticas de resultado. Uma feira, um aplicativo ou um pitch, por si só, não demonstra aprendizagem. A qualidade depende do planejamento, da mediação docente, das condições de participação e da avaliação do percurso.
Como a educação empreendedora dialoga com a BNCC?
A BNCC no ambiente digital do MEC, na etapa do Ensino Médio, oferece pontos de conexão com a formação dos jovens. As competências gerais orientam também essa etapa. A aproximação abaixo é uma leitura pedagógica da Soulsy, não uma exigência de que toda escola adote uma disciplina específica de empreendedorismo:
- Competência 2: investigar causas, formular problemas e criar soluções mobiliza pensamento científico, crítico e criativo.
- Competência 6: conhecer possibilidades de atuação e refletir sobre escolhas conecta o trabalho ao projeto de vida.
- Competência 7: justificar uma proposta com fatos e dados confiáveis exercita a argumentação.
- Competência 9: ouvir usuários e negociar em equipe cria situações de empatia, diálogo e cooperação.
- Competência 10: considerar consequências e agir de forma pessoal e coletiva aproxima o projeto da responsabilidade e da cidadania.
O professor ainda precisa definir as habilidades específicas, os conteúdos e as evidências de aprendizagem adequados à etapa de ensino. Para aprofundar o planejamento, veja também nosso artigo sobre IA e BNCC na criação de planos de aula.
E os itinerários formativos?
Pense em uma casa em reforma. Os cômodos mudam de lugar, mas a fiação precisa chegar a todos eles. Com os novos itinerários, acontece algo parecido.
A Lei nº 14.945/2024 reorganizou o Ensino Médio, e a Resolução CNE/CEB nº 4/2025 definiu os parâmetros dos Itinerários Formativos de Aprofundamento (IFAs). Os principais pontos:
- Cada IFA tem no mínimo 600 horas e se organiza a partir das áreas do conhecimento.
- Cada escola oferta ao menos dois itinerários com ênfases distintas.
- Quatro eixos estruturantes precisam estar presentes em todos os itinerários: Método, Conhecimento e Ciência; Mediação e Intervenção Sociocultural; Inovação e Intervenção Tecnológica; Mundo do Trabalho e Transformação Social.
- O projeto de vida dos estudantes ocupa lugar central.
- Os parâmetros valem para os estudantes que ingressaram no Ensino Médio a partir de 2026.
Na regra anterior, empreendedorismo era o nome de um dos eixos. Agora ele aparece distribuído: a investigação de problemas reais conversa com Método, Conhecimento e Ciência; projetos sociais e comunitários, com Mediação e Intervenção Sociocultural; a prototipação de soluções, com Inovação e Intervenção Tecnológica; e a reflexão sobre carreira e impacto, com Mundo do Trabalho e Transformação Social.
Na prática, a preocupação da escola passa a ser como garantir esses eixos dentro de cada itinerário, com evidências de aprendizagem. Um percurso de projetos empreendedores é uma forma de responder a essa demanda em qualquer área.
Vale lembrar: os conselhos estaduais de educação regulamentam a aplicação dessas regras em cada sistema de ensino. Por isso, a escola deve acompanhar as normas do seu estado.
Um exemplo na escola: do problema ao teste
Imagine uma turma que percebe materiais recicláveis misturados ao lixo comum. Em vez de começar desenhando um aplicativo, os estudantes podem investigar se a dificuldade está na sinalização, na localização dos coletores ou no destino dado aos resíduos.
- Investigar: observar os espaços com autorização da escola e conversar com quem usa e cuida deles, sem expor pessoas ou coletar dados desnecessários.
- Definir: escolher um problema específico e registrar o que é evidência e o que ainda é hipótese.
- Prototipar: construir uma sinalização ou um modelo simples de coletor, dentro do tempo e dos recursos disponíveis.
- Testar: combinar com a escola um pequeno teste, critérios de observação e cuidados de segurança; estudantes não precisam manusear resíduos.
- Revisar: comparar observações, ouvir retornos e explicar o que mudariam, inclusive se a proposta não funcionou.
O aprendizado não se resume ao objeto final. Está também em reconhecer uma hipótese equivocada, justificar uma mudança e perceber que uma solução precisa funcionar para outras pessoas, não apenas agradar à equipe.
O que avaliar e o que evitar
Antes de iniciar o projeto, vale combinar critérios: qualidade da investigação, uso de evidências, contribuição de cada integrante, viabilidade da proposta e capacidade de explicar revisões. Registros de decisões, versões do protótipo e reflexões individuais ajudam a enxergar esse percurso. Um pitch bem apresentado não deve esconder um processo pouco investigado.
Também é importante não confundir formação empreendedora com competição por faturamento, culto ao sucesso ou responsabilização individual por problemas estruturais. Jovens têm condições de acesso diferentes: a atividade não deve depender de dinheiro da família, contatos pessoais ou exposição pública. Projetos sociais, culturais e ambientais precisam ter espaço, e nenhum estudante deve ser pressionado a abrir um negócio.
Onde a tecnologia pode apoiar esse percurso?
A tecnologia faz sentido quando ajuda a organizar o trabalho e a tornar as decisões visíveis. A Soulsy for Education é uma plataforma de gestão de projetos de empreendedorismo e inovação, com suporte de IA: reúne projetos, conceitos e evidências e oferece acompanhamento de turmas e relatórios formativos para o professor.
A IA entra como apoio à investigação e à reflexão, não como autora de um plano de negócio para o aluno copiar. As escolhas precisam continuar sendo explicadas pelos estudantes, e o julgamento pedagógico permanece com o professor.
Formar o pensamento empreendedor é ensinar o jovem a perguntar, construir, testar e responder pelo que faz. Para começar, a escola não precisa de uma grande competição: pode escolher um problema próximo, estabelecer um objetivo de aprendizagem e reservar tempo para investigar e revisar, não apenas apresentar.
Fontes e nota editorial
Texto de 8 de outubro de 2026. O EntreComp é um referencial de competências, não uma prova de que qualquer projeto produzirá os mesmos resultados. As atividades e os critérios de avaliação aqui apresentados são propostas editoriais da Soulsy.
- Comissão Europeia / JRC: EntreComp e criação de valor em diferentes esferas da vida
- Bacigalupo e colaboradores (2016): EntreComp: The Entrepreneurship Competence Framework
- MEC: Base Nacional Comum Curricular no ambiente digital, etapa do Ensino Médio
- Lei nº 14.945, de 31 de julho de 2024
- Resolução CNE/CEB nº 4, de 12 de maio de 2025